A culpa é da Polícia?

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Por Flávio Henrique Stringueta

Daqui a alguns dias, completarei dezesseis (16) anos na carreira de Delegado de Polícia neste Estado de Mato Grosso, que me acolheu muito bem no mês de março de 2001 e tem me proporcionado diversas fontes de satisfação.

Também fui policial civil no interior do meu Estado natal, São Paulo, por um curto período de pouco mais de três (3) anos, tendo o início dessa jornada se dado no longínquo ano de 1991.

Não quero cansar você, meu leitor, com a minha história de vida. Só pretendo trazer pra hoje uma frase que escutei durante minha preparação para a carreira de Investigador de Polícia no ano de 1991, ou seja, na Academia de Polícia de São Paulo, situada na entrada da Universidade de São Paulo. Um de meus professores disse que não tem como se “fazer polícia” sem o alicerce de três (3) pilares: bons salários, boa estrutura e boa legislação.

Três (3) pilares parece pouco. Porém, vejam quão difíceis de serem construídos, pois que até hoje, vinte e seis (26) anos depois, não temos nenhum deles plenamente fincados na nossa estrutura principal chamada Segurança Pública.

Quando meu professor disse “fazer polícia”, ele quis dizer proporcionar segurança pública à sociedade. Essa expressão – “fazer polícia” – é muito utilizada no nosso meio, mas talvez não muito conhecida da população em geral. Por isso me permitam essa breve explanação sobre o tema.

Vamos adiante agora.

Tenho visto diariamente críticas às instituições policiais, acusações de ineficiência, corrupções, truculência, abusos. E não vou contra quem faz essas críticas, pois que merecidas em sua maioria.

Contudo, posso dizer que as polícias (civil e militar) têm melhorado muito desde que ingressei a primeira vez lá em São Paulo. E têm melhorado sem que tenhamos visto grandes esforços dos nossos governantes. Parece que a melhora tem mais ocorrido por comprometimentos pessoais, o que também é bom.

A sociedade não quer mais ter seus esforços desatendidos pelas instituições, mas não temos visto grandes avanços quando se trata de atividades geridas pelo poder público.

Muitas vezes eu tenho dito que o serviço público já teria falido se fosse uma empresa privada. Já estive em situações em que precisava de um serviço em uma repartição pública, mas o único funcionário que fazia aquilo não havia ido trabalhar naquele dia. Como ter um único servidor para uma dada atribuição? Em uma empresa privada haveria outros tantos para o mesmo posto, isso para satisfazer seu cliente e não perdê-lo. No serviço público é diferente. Parece que o cliente é um estorvo.

Em diversas reuniões com policiais que trabalham, ou trabalharam, comigo, disse-lhes que nosso serviço tem que ser diferenciado, pelo menos nas unidades policiais em que fui gestor. Uma das coisas que lhes falo, ou falei, é que devemos prestar um serviço como se fôssemos nós que o estivéssemos recebendo. Certamente o serviço seria, e tem sido, muito mais bem feito.

Parece simples, não é? Na prática, não.

O servidor público precisa se sentir motivado para conseguir prestar bem suas atribuições. E motivação é um tanto difícil frente às dificuldades diárias que enfrentamos, seja com estruturas inadequadas, ambientes de trabalho impróprios, equipamentos não condizentes, baixo efetivo.

Quando se encontra um servidor compromissado, dedicado, ele fará o serviço que deveria estar sendo feito por vários, porém com o mesmo rendimento financeiro no final do mês daquele servidor ineficiente. Encontramos muitos servidores assim (compromissados e dedicados), não se preocupem tanto, pois nem tudo está perdido.

Ao se falar que as polícias não estão sendo eficientes, devemos lembrar que elas nunca foram plenamente equipadas, estruturadas e preenchidas com pessoal para serem integralmente testadas. Portanto, são injustas essas críticas, não acham?

Costumo dizer em algumas palestras que já ministrei que a polícia brasileira deve ser a melhor polícia do mundo. Pois, fazer o que fazemos, prender o que prendemos, solucionar os crimes que solucionamos, com o que recebemos do Estado, é muito. O que acham dessa constatação?

Não vou tirar completamente a culpa das polícias pela sua ineficiência. Contudo, essa “nossa culpa” deve ser colocada no prato da balança que pesa muito menos do que aquele em que está a “culpa” dos governantes.

A corrupção no meio policial ainda é grande, concordo também. E ela não acabará com a melhoria dos salários, podem ter certeza disso. Corrupto é aquele que não recebeu os melhores valores em sua educação. É aquele desprovido de caráter. E caráter não se adquire. Ou você o tem, ou nunca o terá. Se a questão da corrupção fosse resolvida com altos salários, não teríamos esse câncer no meio dos Poderes Judiciário e Legislativo, nem no seio do Ministério Público, em cujas fileiras temos visto os maiores salários pagos em nosso país.

Para uma diminuição significativa da corrupção, temos que investir em cultura, o que me levaria a uma outra área deficitária da nossa pátria. E, quando digo cultura, estou me referindo a algo mais amplo do que educação. Esta ajuda a formar aquela. Talvez, vamos refletir juntos, a educação, ou a sua falta, é o maior causador de todas as demais deficiências que ocorrem em nossa sociedade. Vou parar por aqui nesse caminho, pois não creio que esteja gabaritado para caminhar por essa seara. Então, voltarei à segurança pública.

Também no quesito corrupção nos meandros policiais, entendo que uma boa forma de diminuí-la seja investindo mais no processo seletivo. Dificultando os meios de admissão dos servidores, conseguimos selecionar os policiais “por cima”. Ou seja, os candidatos precisarão estar mais bem preparados para ingressarem nas carreiras policiais, sendo, portanto, selecionados entre os melhores da sociedade.

Alguns vão dizer: mas o processo de admissão de Juízes e Promotores de Justiça é muito difícil, e ainda temos corrupção lá!!! Meu pensamento está incorreto, então. Daí, nobre leitor, retornaremos à discussão sobre cultura, o que exige muito mais tempo e investimentos. Novamente não me atreverei a discutir esse tema neste artigo.

O nosso povo está habituado à corrupção. Além de aceitá-la passivamente, também a pratica quando adquire produtos piratas e ou de origem duvidosa, fura filas. Ou seja, se vale do “jeitinho brasileiro” para resolver seus problemas ou conquistar algum benefício.

O mesmo sujeito que reclama da corrupção dos grandes e dos servidores públicos, não vê problema em saquear uma carga de um caminhão que tombou na pista. Saquear está sendo um verbo utilizado para tornar menos feia a conduta desses criminosos que estão, na prática, furtando.

Um dia ouvi de um amigo que determinado político não era honesto, que ele sabia disso, mas iria votar nele porque “ele rouba, mas faz”. Fiquei indignado. Perguntei-lhe: Imagine se você contratasse um pedreiro, por exemplo, para uma obra em sua casa. Após a sua conclusão, pagaria pelo serviço, mostrando-se satisfeito, se ele, mesmo fazendo o combinado, tivesse entrado em sua casa e levado um eletrodoméstico qualquer?

Pois bem, meu leitor, é isso que acontece quando aceitamos passivamente o tal político que “rouba, mas faz”. Ele está levando um “eletrodoméstico qualquer” nosso, mas de proporções danosas muito maiores. Esse “eletrodoméstico qualquer”, nesse caso, é a nossa saúde, a nossa segurança, a nossa educação, a nossa previdência, as nossas estradas, o nosso bem estar, o nosso lazer. Tudo isso está sendo levado de nossas vidas, e nós estamos aceitando passivamente quando ainda reelegemos o dito político que “rouba, mas faz”.

Quando vi nas redes sociais e nos documentários televisivos aquela cena do ex-governador do Rio de Janeiro sendo conduzido para o interior de uma ambulância em uma maca e ouvi sua filha dizendo que ele não era bandido, fiquei perplexo com a forma como essas pessoas se enxergam. Para eles, bandidos são apenas os homicidas, estupradores, os ladrões que agem com violência, os latrocidas. Eles não veem que suas condutas ilícitas, seus desvios, seus atos de corrupção causam muito mais mortes do que os crimes cometidos por essas outras classes de bandidos.

Quando o dinheiro dos impostos não é devidamente aplicado na saúde, quantas pessoas não morrem por falta de atendimento, de medicamentos ou de estrutura adequada.

Quando o dinheiro dos impostos não é devidamente aplicado na segurança, quantas pessoas não morrem em assaltos, homicídios, quantos bens não são perdidos em ações criminosas.

Quando o dinheiro dos impostos não é devidamente aplicado nas obras de infraestrutura viária, quantas pessoas não morrem em acidentes de trânsito.

Quando o dinheiro dos impostos não é devidamente aplicado no sistema prisional, quantas pessoas não sofrem por conta dos golpes que são aplicados por esses presos com fácil acesso a aparelhos celulares.

Quando o dinheiro dos impostos não é devidamente aplicado em política habitacional, quantas não morrem por terem construído casebres em encostas de morros.

E por aí vai.

E quanto à pergunta do título do presente artigo? Já chegamos a alguma conclusão sobre de quem é a culpa? Se a polícia é a culpada por suas deficiências de resultados?

Não darei a resposta a que cheguei, pois tive a intenção de apenas lhe passar, meu leitor, um pouco do que vejo nessa área para convidá-lo à reflexão. Minha opinião já está bem formada, mas, por ser integrante dos quadros da segurança pública, essa opinião pode estar viciada pelo meu interesse pessoal na causa.

Creio que a sua conclusão poderá também ser aplicada em qualquer outra área gerida pelo poder público, não só nessa tão crítica a que eu pertenço.

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Flavio-stringuetaFlávio Henrique Stringueta é Delegado de Polícia, responsável pela Gerência de Combate ao Crime Organizado – GCCO/MT

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